O André já cá não está. Já não brinca lá fora debaixo deste sol. Já não vem de manhã para a escola com o sorriso e os livros.

Já não o veremos fugir das funcionárias, com aquele ar malandro, pelos corredores fora. Não escreverá à D. Ana no S. Valentim do próximo ano. Nunca mais poderei ralhar com ele nas aulas.

O André era um dos nossos. Já chorámos por causa do André. Temos saudades dele. Era um dos nossos e partiu à nossa frente.

Para outro lugar.

Gostamos de ter, como tiveram sempre os nossos antepassados, a certeza firme de que a morte é apenas como mudar de casa. A esperança de que aqueles de quem gostámos estão guardados para nós e nos esperam.

Noutro lugar. O André está noutro lugar. Com quem brincas tu agora, André?

Chegou ao fim do caminho a sorrir. O Almeno, que estava lá naquele sábado, contou que a última coisa que o André fez foi sorrir. No meio da dor da queda.

Quem vive a sorrir morre a sorrir.

Disse-me o professor Luís que é costume os bons morrerem cedo. O André era bom. Eu sei. Não tinha jeito para estudar, nem paciência para estar quieto numa aula durante muito tempo. Como tantos de nós...

Mas esforçava-se. Tentava.

Uma vez dei-lhe o conselho de não se sentar, nas aulas, à beira dos colegas com quem gostava mais de brincar e conversar. Disse-lhe que assim podia aprender mais coisas nas aulas.

Não sei se o André conseguiu realmente aprender mais coisas, mas, a partir desse dia, quase sempre se sentava sozinho, lá naquele lugar da sala catorze que para nós ficará sempre vazio.

E custava-lhe muito fazer isso. Eu sei.

O André tentava. E os bons são os que tentam sempre, os que querem melhorar ao menos um bocadinho.

O André não fazia tudo bem. Era preciso ralhar com ele muitas vezes.

Eu não faço tudo bem. Vocês fazem?

Mas gostávamos dele, assim como ele era. Alguns só agora é que estão a entender como gostavam dele.

É que só podemos gostar de pessoas com defeitos. Porque as pessoas sem defeitos não existem.

Eu ralhei muito com o André, porque às vezes temos de ralhar com as outras pessoas. Mas não deve ser à conta de nos estarem a incomodar. Deve ser para bem delas, porque gostamos delas e queremos que sejam melhores.

Nada de zangas. Ralhar, sim. Mas ralhar e gostar.

(O André foi meu aluno e meu amigo. Morreu aos 12 anos, na aldeia onde vivia, em consequência de uma queda de bicicleta. Eu, depois, fui para casa escrever isto...).

Paulo Geraldo