A turma tinha vinte e seis alunos e era a décima do sexto ano. Os Bons, os Maus e os Águas faziam parte dela. Como todas as turmas da Escola, tinha as suas beldades, os seus palhaços, os seus Quixotes... e uma multidão de Sanchos.

As crianças do 6º 10ª eram uma amostra da população escolar. Umas tinham pais ricos, outras tinham pais pobres - muito pobres ou pouco pobres - e outras não tinham pais ou, se tinham, não sabiam. Algumas eram felizes, outras estavam na dúvida, outras pensavam que não. Gostavam todas de rir, estudavam muito pouco e eram raras as meninas que não tinham namorado ou esperança de vir a ter.

Entre si eram diferentes. Eram loiros e morenos, tinham sardas e borbulhas, olhos azuis e castanhos, óculos pouco assumidos com medo de uma bolada ou a alcunha de "cangalhas", e portavam-se de acordo com a sua natureza e vida familiar. Quando um professor deixava, trepavam pelas paredes e ... "Viva a rebaldaria!", mas se os mantinha cuidados na palma da sua mão, baixavam as guardas todas, levantavam a viseira e rendiam-se à firmeza, se a firmeza tinha amor.

Falar daquelas crianças é alinhar pedacinhos dos "puzzles" das suas vidas. Defini-las e explicá-las já não seria possível pois, indivíduos que são, serão sempre inatingíveis no rosto da sua alma. Todavia, quem os conheceu bem e privou com eles, até mais do que a família, sente que sempre houve alguns a quem foi dado chegar à porta do seu castelo... Por dois anos? Por um momento? ...

É isso o que uma escola tem de triste: eles vêm e recebem doses de ternura, saber e atenção e depois vão-se embora e não voltam mais. Para quem os conheceu, o tempo não passa; podem crescer, ter barba, bigode, casar e ter filhos que, no coração onde se instalaram, são sempre meninos e não crescem mais.

E, ao acolher cada ano os que chegam, ao comparar falhas, virtudes, sorrisos, há sempre a tendência de apelar para o passado, à procura dos outros que deixaram marcas, e eram tão iguais aos que agora chegam.

É assim que se pensa notando semelhanças: Meu Deus, a Princesa das Neves voltou! E o Manel, o Toninho... E, olha a Adélia e a Mariazinha!...

Então o tempo pára, a história repete-se e não custa tanto perdê-los mais tarde, pois ano após ano, tornam a voltar.

 

 

(Maria Lucília Bonacho - O Futuro está a estudar)