Tem sido passada com sucesso para o público a ideia de que é necessária a existência de uma longa escolaridade obrigatória para os nossos jovens. Esta ideia aparece colada a duas outras, claríssimas, pretendendo ter nelas, como em dois pontos de apoio, a sua justificação. O primeiro desses evidentes pontos é o de que a justiça exige que todas as pessoas tenham iguais direitos a aceder à instrução escolar. O segundo consiste em que a exploração do trabalho infantil é uma coisa horrenda e monstruosa.

Mas nada nos proíbe de pensarmos melhor na pretendida relação entre os pontos de partida e a conclusão.

Em primeiro lugar, não é verdade que a justiça consista em tratar todas as pessoas da mesma forma. Ela consiste, antes, em tratar cada pessoa da forma que lhe corresponde, de acordo com as suas características e necessidades pessoais. Isto exige, porém, que se dê atenção a cada pessoa singular, e... dá muito trabalho.

Depois, existe uma enorme diferença entre reconhecerem o direito de uma pessoa à instrução e obrigarem-na a ter uma instrução que não deseja e de que não precisa. E que, além disso, a impede de aprender a trabalhar.

Por outro lado, existe uma distinção nítida entre trabalho infantil e exploração do trabalho infantil. Mas já nos martelaram estas coisas tantas vezes aos ouvidos que começamos a confundir os dois conceitos. É realmente monstruoso que o trabalho infantil seja explorado. Ficamos chocados com isso, e fazemos muito bem, pois qualquer género de exploração é odiosa. Mas o trabalho durante a juventude é coisa útil e necessária. É a trabalhar que se aprende a trabalhar. É na juventude que se devem adquirir  as capacidades – de esforço, de persistência, de concentração... – que o trabalho exige. O trabalho, com a medida adequada às características e à idade de cada um, edifica o homem. Molda-lhe as virtudes, o carácter e os músculos.

É muito natural que um filho aprenda a trabalhar ajudando o pai, com este a seu lado. Há muitas profissões e ofícios - digníssimos e necessários - que não se aprendem nos livros. A vida está cheia de tarefas que apenas se aprendem quando se trabalha nelas.

O nosso sistema escolar fornece aos jovens conhecimentos que não são úteis a uma imensa parte deles; conhecimentos que, em muitos e muitos casos, não chegam a sê-lo porque não existe a inclinação para os assimilar. Existe, sim, inclinação para outras coisas, igualmente boas; mas essa capacidade não é actualmente aproveitada nem orientada.

Este país está a encher-se de jovens que beberam a escolaridade obrigatória até à última gota e que agora não sabem fazer... nada. Vemo-los hoje frequentar todo o género de casas nocturnas com o dinheiro dos pais. Amanhã, como não aprenderam a trabalhar, terão de tentar sobreviver à custa de adaptações ou de truques, talvez não muito de acordo com a lei ou com os bons costumes.

É preciso distinguir entre dar aos jovens uma instrução básica, naquilo que é essencial para entenderem o mundo, e  uma série de coisas pouco úteis que não parecem servir senão para formar as pessoas segundo um determinado molde, igual para todas, esvaziando-as das suas características pessoais e das características adquiridas no ambiente familiar e regional onde se desenvolveram.

Talvez suceda que, em vez de se estar a proporcionar formas de os jovens desenvolverem harmoniosamente as suas potencialidades individuais, se esteja a transformá-los em pessoas facilmente manobráveis, em algum género de molusco carente de coluna vertebral... Em "trabalhadores indiferenciados", como já tenho lido em algumas propostas de emprego: pessoas apenas com músculo, que sirvam somente para "funcionar". Como objectos, como números, como rebanho. Servos, no fundo...

Das duas, uma: ou a escolaridade obrigatória consegue tornar-se útil para os jovens – considerados individualmente, como pessoas – ou continua a constituir uma aberração anti-natural e uma profunda injustiça.



Paulo Geraldo